A intersecção da literatura com a informática, com especial incidência na poesia animada em computador, que será o objecto em análise neste breve ensaio, acentua a tendência do texto para transpor os limites convencionais, ao intensificar as propostas de interpenetração do verbal com o sonoro e o visual, já presentes em manifestações anteriores, por exemplo, no âmbito da poesia experimental1, mas também como lembra José Augusto Mourão (p. 409 e ss), ao entrar efectivamente em movimento e ao prestar-se a modificações, o que implica que as transformações de maior alcance produzidas pela literatura digital no conceito de texto são provocadas pelos textos mais interactivos.
A intrusão da informática no domínio da literatura pressupõe, desde logo, atender às implicações complexas entre máquina (hardware), programa (software) e texto, cuja consequência, segundo Ambroise Barras (p. 75), é que já não será possível falar de texto de forma autónoma, mas sim, em contrapartida, de um sistema ou de uma configuração mais complexa “máquina-programa-texto”.
O uso do computador implica estratégias que se afastam do processo de leitura a que o livro impresso nos habituou: a página luminosa exposta no ecrã apela mais a ver, a percorrer com o olhar, do que a ler em sequência. Esta mutação na inscrição tem implicações profundas, já que a página de papel (ou outro suporte material tradicional) transporta consigo o registo fixo, a marca inalterável de um signo, ao passo que o ecrã apresenta uma superfície lisa e luminosa oferecida à percepção visual. Da inscrição impressa que predominantemente guia o olhar linha após linha, passa-se então para o ecrã no qual o olhar tem tendência a dispersar-se, observando toda a superfície em simultâneo, com o leitor a transformar-se num espectador de um texto iluminado por dentro, que parece flutuar numa certa irrealidade. Pode, por isso, afirmar-se que neste suporte, o texto espectaculariza- se e demarca-se da inscrição rígida e fixa.
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