Desde o século XVIII, no Ocidente, desenvolvemos a metodologia da ciência como matéria obrigatória em praticamente todas as regionalidades científicas. Esta tradição elegeu a matriz verbal da escrita como a grande representação do pensamento analítico reflexivo. À essência institucional deste pensamento analítico (no meio acadêmico universitário a escrita moldou a fala), composto por um processo de fragmentação dos objetos de pesquisa, somaram-se inúmeras características de fundamentos filosófico-teóricos que, independente de suas variações e abordagens, determinaram a relação leitura/escrita como o único caminho possível à reflexão científica. Neste caminho de historicidade, houve inúmeros momentos que fizeram da divisão (institucional) entre arte e ciência, a expressividade da ruptura entre, de um lado, o predomínio da escrita metodológica na ciência e, de outro, a relevância das manifestações imagéticas e sonoras na arte. Apesar de inúmeros movimentos filosóficos terem defendido a idéia da paridade entre signos de características sonoras, imagéticas e verbais, que estaria presente em todo processo reflexivo, a verdade sempre esteve associada à colusão institucional de que somente a escrita, fruto da leitura de textos consagradamente científicos, poderia representar a condição máxima do juízo analítico. As divisões institucionais entre arte e ciência nos dias de hoje ainda guardam, sobretudo institucionalmente, esta tradição.
É deste lugar que pretendo partir à proposição da seguinte problematização: terão as produções hipermidiáticas da década de 90 do século passado e dos primeiros anos deste século, desenvolvidas sobretudo nas universidades brasileiras e alemãs, a possibilidade de demonstrar novos desafios à expressividade do pensamento científico? Este artigo, portanto, pretende ser somente a colocação do problema. Noutro momento, intenciono demonstrar como, a partir das grandes relações entre filosofia, ciência e metodologia, esta tendência de esquecimento e solapamento dos signos de predominância imagética e sonora, foi sendo construída. Nesse início de século, temos possibilidades, quase ilimitadas, de desenvolvermos uma metodologia hipermídiática de pesquisa científica, que sirva tanto para processos de produção quanto de avaliação do conhecimento científico. Neste contexto, os maiores desafios estão localizados na lide resultante da relação entre os recursos hipermidiáticos à disposição e a proposta de renovação teórico-temática do trabalho científico de tradição verbal escrita. Estes desafios, até certo ponto interdependentes, têm uma dimensão institucional, outra dimensão de competências a serem desenvolvidas pelos próprios pesquisadores e uma outra, epistemológica.
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